Dias antes de ser preso por estelionato em Balneário Camboriú, no litoral de Santa Catarina, o empresário Fernando Sampaio de Souza e Silva, de 36 anos, trocava mensagens com clientes lesados por sua empresa prometendo o reembolso do prejuízo. No entanto, os clientes negam ter recebido qualquer valor.
Fernando é dono da empresa Outsider Tours, que vende pacotes de viagens e ingressos para eventos esportivos em todo o país. A empresa teve diversos problemas judiciais nos últimos anos, com centenas de investigações e processos nas justiças cível e criminal.
Um dos clientes lesados é Márcio Henrique Ayres de Andrade, de 46 anos, que não conseguiu levar o filho e viajar com um grupo de amigos para a última final da Libertadores, em 2025, em Lima, no Peru.
Ele afirmou que conversou com Fernando no dia 2 de janeiro, quatro dias antes da prisão.
“Ele respondeu sempre de uma forma estúpida e brincalhona. Ele disse que a culpa era nossa, que depois que colocamos ele na imprensa ele não conseguiu vender mais pacotes”, relatou Márcio.
Segundo ele, até esta quinta-feira não tinha sido depositado nenhum valor em sua conta.
Márcio diz que está conversando o banco para sanar o prejuízo de R$ 9,4 mil.
Mensagens trocadas com Fernando mostram que o empresário, apesar de prometer o reembolso, responsabiliza as vítimas pelo problema enfrentado pela empresa.
“Olá, vamos reembolsar. Vocês F*&ram a gente, a empresa tá passando mais dificuldades. Mas vamos reembolsar”, diz Fernando em uma das mensagens.
Márcio tinha feito uma surpresa para o filho contando que iriam à final da Libertadores. Ao descobrir o golpe, foi obrigado a dizer que não viajariam mais.
“Ele estava perguntando com ansiedade quando nós iríamos, o horário do voo, e eu tive que contar a verdade para ele, do golpe. Ele ficou triste, chateado, mas depois ficou mais tranquilo”, contou Márcio, que também comentou a prisão de Fernando Sampaio:
“É o mínimo. Com toda essa repercussão, eu acho que vai coibir outras pessoas de caírem nesse golpe. Eu pretendo acioná-lo na Justiça com certeza, porque é um transtorno muito grande, não é só o dinheiro”, pontuou.
Questionada, a defesa de Fernando Sampaio diz que desconhece a legitimidade das mensagens, mas que a promessa de reembolso reforça o compromisso de pagar os clientes lesados.
Monitorado por um mês
Sampaio foi preso após ser monitorado por um mês pela polícia do Pará, que conduziu a investigação contra ele. Os agentes seguiram os passos do suspeito no Rio de Janeiro e em Santa Catarina.
Após ficar durante o mês de dezembro no Rio, Fernando passou a virada de ano em um prédio de luxo no centro da cidade com o pai. Ele levava uma vida de ostentação enquanto respondia a centenas de processos em todo o país, segundo as investigações.
As investigações de uma delegacia no sudeste do Pará indicaram um prejuízo de R$ 8,2 mil para quatro clientes paraenses torcedores do Flamengo. Eles compraram pacotes de ingressos para a final da Libertadores em Lima, contra o Palmeiras. Após não terem recebido os ingressos, foram à polícia:
“Essas vítimas representaram pelo crime de estelionato. Elas adquiriram ingressos e não receberam seus tíquetes para o jogo. Representamos pela prisão preventiva e iniciamos o monitoramento desse indivíduo”, afirmou o delegado Erivaldo Campelo, da Superintendência do Lago Tucuruí, da Polícia Civil do Pará. A prisão foi feita quando Fernando saía do edifício..
“Existia uma continuidade delitiva, com delitos praticados em diversos estados do nosso país. Conseguimos demonstrar ao poder judiciário que qualquer medida judicial diversa da prisão não seria suficiente para a aplicação da lei penal”, explicou. “Tem que analisar não só essas vítimas, mas todas as vítimas que ele tem feito desde 2022”.
Na decisão, o juiz sustentou que Fernando Sampaio, caso estivesse solto, poderia continuar praticando golpes. Para o magistrado, a série de casos na Justiça, com múltiplas empresas utilizadas para receber pagamentos e captação de vítimas em larga escala em ambiente digital, demonstravam o “elevado grau de periculosidade” de Fernando Sampaio.
As páginas da Outsider nas redes sociais já não podiam ser acessadas nesta quinta-feira (8).
No site, lê-se o aviso: “Estamos temporariamente fechados”.
A defesa de Fernando Sampaio afirmou que não teve acesso à investigação, mas que vai pedir a revogação da prisão preventiva do empresário.
O advogado Bruno Albernaz afirmou que seu cliente nunca quis lesar nenhum cliente, e que seu objetivo é pagar a todos que se sentiram prejudicados. Ele disse ainda que tudo será explicado nos autos. Segundo nota enviada à empresa, o que houve foi um problema de “administração empresarial”.
“Ele está atravessando uma situação muito difícil, mas a intenção dele é pagar da forma que ele conseguir, honrar os seus compromissos com todo mundo”, disse o advogado.
Fonte: g1
