A organização Women’s Link Worldwide e a Amnistia Internacional deram esta quarta-feira uma conferência de imprensa para dar detalhes sobre a denúncia apresentada contra o cantor Julio Iglesias.
Jovana Ríos, porta-voz da organização, destacou a importância de que o processo judicial garanta a segurança das trabalhadoras que continuam empregadas pelo denunciado, a fim de evitar sua revitimização.
Contexto de servidão e abuso de poder
A denúncia, apresentada ao Ministério Público da Audiência Nacional em Espanha ao abrigo do princípio de extraterritorialidade, descreve factos ocorridos entre 2020 e 2021 nas residências do cantor na República Dominicana e nas Bahamas.
As organizações consideram que os testemunhos configuram crimes de tráfico de seres humanos para trabalho forçado e servidão, além de assédio e agressão sexual com lesões.
Gema Fernández, advogada do caso, sublinhou a extrema assimetria de poder entre o cantor e as trabalhadoras, que a Amnistia Internacional descreve como mulheres migrantes racializadas em contextos de pobreza.
“Os factos relatados ocorreram num contexto de intimidação e diante das suas chefes”, assinalou Fernández, destacando que a organização pretende, com este “litígio estratégico”, desmantelar a impunidade que a fama e a riqueza frequentemente conferem.
Medidas cautelares e testemunhas protegidas
Perante a gravidade das acusações e o facto de as vítimas permanecerem no ambiente laboral do denunciado, o Ministério Público já atribuiu a Laura e Rebeca o estatuto de testemunhas protegidas.
Entre as medidas pedidas pela defesa contam-se evitar qualquer contacto direto com o cantor, proteger a privacidade das famílias das mulheres e aplicar protocolos que evitem a revitimização durante as declarações.
“Pretendo que nenhuma mulher volte a sofrer abusos por parte dele”, transmitiu Laura através dos seus representantes legais. Enquanto a investigação pré-processual avança sob rigorosa reserva, o impacto social já se faz sentir: a editora Libros del Asteroide anunciou que irá reescrever a biografia do cantor após as acusações, e o ministro da Cultura, Ernest Urtasun, classificou os factos como “repugnantes”, confirmando que o Governo estuda retirar-lhe as honrarias oficiais.
Para assegurar a proteção das vítimas, o Ministério Público da Audiência Nacional mantém o caráter secreto das diligências, num caso que promete marcar um antes e um depois no escrutínio das grandes fortunas e figuras do entretenimento face aos direitos dos trabalhadores.
NOTA DE RETIFICAÇÃO
Atualização (16/01/2026): Uma versão anterior deste artigo indicava que as duas denunciantes continuavam a trabalhar para Julio Iglesias. Após rever as declarações da Women’s Link Worldwide, esclarecemos que a organização se refere à necessidade de proteger as trabalhadoras que atualmente fazem parte do serviço do artista para evitar a sua revitimização, e não necessariamente às duas mulheres que apresentaram a denúncia.
Fonte: EuroNews





