Ícone do site Hora 1 MT Notícias

Cidade do RS tem maior proporção de funcionários no setor privado: ‘Mais vagas que população’

Divulgação

PRESIDENTE LUCENA, RS (FOLHAPRESS) – Jéssica Monteiro, 27, cruzou o Brasil em 2022. À época, saiu de Belém para fixar residência em Presidente Lucena, uma pequena cidade do Rio Grande do Sul a cerca de 3.800 km da capital do Pará.

A mudança ocorreu após conversa com um cunhado que havia migrado antes para o município gaúcho. Segundo Jéssica, um dos atrativos citados por ele foi a oferta de empregos na região.

Em 2022, a população de Presidente Lucena ocupada com algum tipo de trabalho era composta por 1.560 pessoas de 14 anos ou mais, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Desse total, 1.526 habitantes atuavam como empregados no setor privado, ou seja, eram funcionários de empresas, o equivalente a 97,8% da mão de obra na ativa. É a maior proporção dessa categoria nos municípios brasileiros.

Na média do país, os empregados no setor privado representavam 51,7% da população ocupada. O IBGE publicou os números no último mês de outubro.

“Acho que temos mais vagas de emprego do que população [disponível], porque muita gente de fora vem trabalhar dentro do nosso município”, diz o prefeito de Presidente Lucena, Luiz José Spaniol (PDT), conhecido como Lui.

A fala é uma referência aos moradores de cidades vizinhas e aos migrantes de outras regiões que se mudaram para o local nos últimos anos, como é o caso de Jéssica.

Em 2022, a paraense logo encontrou emprego na produção de uma indústria de alimentos de Presidente Lucena, a Petry. Quase quatro anos depois de sua chegada, a trabalhadora faz faculdade e segue na empresa –agora como auxiliar de compras.

Com raízes na imigração alemã, Presidente Lucena fica a quase 70 km de Porto Alegre e, segundo o Censo, tinha uma população total de 3.077 habitantes em 2022. A prefeitura, contudo, diz que o contingente é maior e está próximo de 4.000 atualmente.

A Folha esteve em Presidente Lucena no início de dezembro. A alta proporção de trabalhadores ocupados como funcionários no setor privado (97,8%) destoa de cidades do interior gaúcho como Coronel Pilar, também visitada pela reportagem.

Sem grandes empresas, Coronel Pilar tinha em 2022 o maior percentual do Brasil de trabalhadores por conta própria. Cerca de 90 km separam os dois municípios com realidades distintas de ocupação.

Em Coronel Pilar, cuja economia é baseada em pequenos produtores rurais, os trabalhadores por conta própria respondiam por 74,2% da mão de obra na ativa, de acordo com o Censo. Na média do país, o percentual foi de 26,7% em 2022.

PREFEITURA FALA EM ECONOMIA DIVERSIFICADA

A prefeitura de Presidente Lucena atribui a elevada proporção de empregados no setor privado a uma economia considerada diversificada para uma cidade pequena. O município abriga operações de granja e abatedouro de aves, indústrias de alimentos e vestuário e propriedades rurais.

De acordo com o Censo, dos 1.526 habitantes de Presidente Lucena que eram empregados no setor privado em 2022, 474 atuavam no grupamento de atividades que inclui a agricultura e a pecuária (ou 31,1%), 307 nas indústrias de transformação (20,1%) e 172 no comércio (11,3%).

Como o recenseamento é uma pesquisa domiciliar, o morador informa a cidade de residência e o trabalho principal, que pode ser exercido na mesma localidade ou em outro município.

ESCASSEZ DE MÃO DE OBRA

Por ser relativa a 2022, a pesquisa não captou toda a recuperação do emprego no país após a pandemia. Em Presidente Lucena, assim como em outras regiões brasileiras, os relatos são de escassez de mão de obra neste momento.

Na indústria Petry, mais da metade dos cerca de 200 funcionários é de cidades próximas, segundo o diretor-administrativo, Luciano Fick, 48. “Tem sido um desafio completar as vagas. A empresa também vem crescendo, e isso demanda mais gente.”

Naim Heylmann, 41, mora em Presidente Lucena e trabalha como supervisor de uma linha de produção da Petry, que aposta em itens como conservas e doces de frutas do tipo chimia -semelhantes a geleias.

Com ensino médio completo, Naim fez a maior parte de sua trajetória profissional na região. Diz que nunca ficou desempregado e que gosta do estilo de vida do interior.

“É tudo prático. Não tem fila. É a vantagem de uma cidade pequena.”

RELATOS DE QUALIDADE DE VIDA

Presidente Lucena ocupou a sexta posição do país e a primeira do Rio Grande do Sul no IPS (Índice de Progresso Social) 2025, que busca medir a qualidade de vida por meio de indicadores socioambientais. A publicação do ranking envolve instituições como o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).

Criado a partir de um processo de emancipação em 1992, o município gaúcho é rodeado por montanhas verdes. Não há grandes prédios em Presidente Lucena.

Segundo o Censo, as casas representavam quase 95% dos domicílios locais em 2022. Correspondiam a 1.056 endereços de um total de 1.112. A proporção de casas no Brasil foi de 82,5%.

O IBGE contabilizou 2.560 pessoas de 14 anos ou mais em Presidente Lucena em 2022. Dessas, 1.563 (61,1%) estavam inseridas na força de trabalho como ocupadas (1.560) ou desempregadas (3).

As demais 997 (38,9%) estavam fora da força. Ou seja, não trabalhavam nem buscavam emprego. Assim, não eram consideradas ocupadas nem desempregadas. É o caso, por exemplo, dos aposentados. No Brasil, a proporção fora da força foi maior (43,3%).

“É bom viver aqui. Temos quase tudo, posto de saúde, mercado. Não precisa sair da cidade”, afirma o aposentado José Führ, 76, que vive em Presidente Lucena.

Ainda de acordo com o Censo, os empregados do setor privado que residiam no município em 2022 ganhavam R$ 2.276 por mês, em média, com todos os trabalhos.

Nesse recorte, Presidente Lucena ficou atrás de 577 cidades no Brasil. São Caetano do Sul (SP) teve o maior valor (R$ 5.508), enquanto São João do Tigre (PB) mostrou o menor (R$ 453).

A média do país foi de R$ 2.406 para a mesma categoria -acima de Presidente Lucena. Os dados foram publicados pelo IBGE em termos nominais (sem ajuste pela inflação).

Presidente Lucena faz parte de um grupo de municípios brasileiros com características como a presença mais acentuada de empregos formais e no setor privado, indica análise do economista Ely José de Mattos, do laboratório de estudos PUCRS Data Social.

Com base em dados do Censo, o pesquisador dividiu as cidades do país em quatro “clusters”, considerando as semelhanças entre os membros do ponto de vista laboral.

O grupo no qual está Presidente Lucena é formado por 1.960 municípios, cuja renda média de todos os tipos de trabalho foi de R$ 2.398 por mês em 2022. É um patamar acima dos outros três “clusters”, aponta a análise.

Fonte: Folha de S Paulo

Sair da versão mobile