O Congresso do Peru elege, nesta quarta-feira (18), um novo presidente, o oitavo em uma década, após o impeachment do mandatário interino José Jerí por reuniões clandestinas com um empresário chinês e pela polêmica contratação de algumas mulheres, em um contexto de instabilidade política crônica.
Os parlamentares se reunirão às 18h locais (20h de Brasília) para votar um novo chefe do Legislativo, que assumirá a presidência interina do país até 28 de julho, data em que tomará posse o governo que vencer as eleições de 12 de abril.
Jerí, de 39 anos, havia substituído em outubro na presidência Dina Boluarte, destituída em um julgamento político relâmpago no qual se alegou sua incapacidade para resolver uma onda de extorsões e assassinatos por encomenda.
O Congresso, que inicialmente considerou Jerí um candidato idôneo, o destituiu na terça-feira por “má conduta no exercício de suas funções e falta de idoneidade para exercer o cargo”, também em um rápido processo.
Jerí caiu em desgraça em janeiro, quando o Ministério Público abriu uma investigação por suposto “tráfico de influência e patrocínio ilegal de interesses” após vir à tona uma reunião secreta com um empresário chinês que faz negócios com o governo.
Sua situação se complicou este mês com outra investigação sobre “tráfico de influência” por sua suposta intervenção na contratação de nove mulheres em seu governo.
– “Sem bússola” –
“Estamos aqui, sem bússola”, lamenta Jorge Becerra, engenheiro civil de 63 anos entrevistado pela AFP no distrito turístico de Miraflores. “Há instabilidade demais, nenhum planejamento e nenhuma estratégia”, afirmou.
Esther Tordoya, designer de interiores de 48 anos, considera que essa nova crise política “é uma farsa, uma piada”. “Fico indignada de ser o motivo de chacota da região”, declarou.
“Enquanto o circo deles (no Congresso) continua, nós seguimos trabalhando”, acrescenta, sentada em frente à universidade onde seu filho faz uma prova de admissão.
Um número recorde de mais de 30 candidatos aspira chegar à presidência nas eleições de abril, que marcarão também o retorno a um Parlamento bicameral.
A saída de Jerí “foi provocada ao se constatar que ele era um político que não tinha a fortaleza para ser um verdadeiro estadista”, disse à AFP o constitucionalista Aníbal Quiroga.
Quatro congressistas se inscreveram para dirigir o Congresso e sucedê-lo por esses poucos meses, entre eles María del Carmen Alva, ex-presidente do Parlamento em 2021 e porta-voz do partido Ação Popular.
Os outros candidatos são José Balcázar, parlamentar de esquerda; Edgard Reymundo, um socialista de longa trajetória; e Héctor Acuña, representante independente questionado por conflitos de interesse.
– Tempos incertos –
O Peru enfrenta desde 2016 uma crise de instabilidade institucional caracterizada por um Poder Legislativo dominante sobre um Executivo frágil.
Dos últimos sete presidentes, quatro foram destituídos pelo Congresso e dois renunciaram antes de ter o mesmo destino. Apenas um conseguiu concluir o mandato interino.
“Incapacidade moral é uma cláusula política feita para se desfazer de um presidente quando ele não tem a aceitação do Congresso”, explicou Quiroga.
O mandato de Jerí deveria garantir a transparência das eleições presidenciais e legislativas de abril.
“Essa crise pode ser um peso eleitoral para os partidos que colocaram Jerí na presidência, como o Força Popular de Keiko Fujimori”, disse à AFP Fernando Tuesta, cientista político da Universidade Católica.
A estabilidade do oitavo presidente não está garantida: “Não se pode assegurar que quem substituir Jerí consiga chegar até julho”, apontou o analista político Augusto Álvarez à AFP.
O Peru blindou sua economia social de mercado diante das crises políticas. O sol é uma das moedas mais estáveis da América Latina e a inflação anual não supera 1,5%.
Seu calcanhar de Aquiles é a informalidade: sete em cada dez peruanos trabalham sem proteção social nem benefícios trabalhistas legais.
“O impacto econômico vai ser nenhum. A parte da informalidade econômica faz com que a vida econômica esteja divorciada da vida política. A economia, por sua vez, segue em piloto automático e a vida política está muito complicada”, disse Quiroga.
Fonte: AFP







