Aos 96 anos, Fernanda Montenegro volta aos cinemas nesta semana com Velhos Bandidos, comédia dirigida por seu filho, Claudio Torres, e divulgada como a última oportunidade de ver a veterana na tela grande. Contudo, mesmo com uma carreira marcada por grandes obras e até uma indicação ao Oscar por Central do Brasil (1998), a atriz se despede do cinema em uma trama sem brilho, que desperdiça quase todas as oportunidades de aproveitar o seu melhor recurso disponível: o elenco.
O longa apresenta o casal Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura), que planeja um ousado assalto a banco. Para realizar o crime perfeito, os dois se unem à (ou melhor, forçam) dupla de jovens assaltantes Nancy (Bruna Marquezine) e Sid (Vladimir Brichta) –que, mesmo contrariados, juntam-se à missão. No entanto, a nova equipe de ladrões precisa lidar com a insistência de Oswaldo (Lázaro Ramos), um obstinado investigador.
É difícil não criar expectativas quando um filme reúne, no mesmo elenco, além de Fernanda Montenegro, nomes como Ary Fontoura, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta e Bruna Marquezine. Contudo, ao tentar fazer uma clara homenagem aos veteranos da dramaturgia, a trama se apega mais aos elogios vazios do que ao potencial de cada um. Haveria melhor homenagem a todos eles do que criar condições e enredo para que entregassem o seu melhor?
Ver Reginaldo Faria, Vera Fischer, Teca Pereira, Tony Tornado e Nathalia Timberg em tela reduzidos a apenas “figurantes de luxo”, em uma história que dá voltas pouco perspicazes em si mesma, é mais melancólico do que um filme de comédia deveria ser.
Velhos Bandidos chega aos cinemas com a promessa de ser uma comédia de ação vibrante, capaz de unir gerações. Infelizmente, o que se vê em cena é o esforço de um elenco de elite para sustentar uma trama que nunca decola.
A premissa é aparentemente funcional: o casal de veteranos diante de uma dupla de jovens vigaristas constrói uma atmosfera de conflito geracional que poderia ser o motor da comédia, mas que acaba caindo em um eterno “quase”. A dinâmica do quarteto também carece de química. O vínculo súbito entre os idosos e os vigaristas não se justifica nem é bem desenvolvido.
Enquanto Fernanda Montenegro entrega a dignidade e a presença impecável de sempre e Ary Fontoura traz um carisma solar, o núcleo jovem parece deslocado. Bruna Marquezine e Vladimir Brichta fazem o que podem, mas seus personagens são construções superficiais, que servem apenas como acessórios para a trama central.
O antagonismo vivido por Lázaro Ramos, no papel do investigador Oswaldo, também deixa a desejar. Ele é um ator de recursos infinitos, mas aqui se vê preso a um personagem unidimensional, cuja “obstinação” beira a caricatura, perdendo a oportunidade de criar um jogo de gato e rato realmente tenso ou genuinamente engraçado.
As piadas são previsíveis, e a ação carece de urgência. Assim, Velhos Bandidos termina como uma obra que não convence nem como filme de assalto frenético, nem como comédia bem executada.
Todavia, a obra ainda vale, sobretudo, pela chance de ver Fernanda Montenegro em um registro mais leve, em sua provável despedida do cinema nacional. É uma celebração afetiva e familiar, mesmo que tenha se tornado uma despedida com sabor agridoce.
Velhos Bandidos estreou na quinta-feira (26) nos cinemas. Veja o trailer:
