Os quatro astronautas que fizeram história ao alcançar a órbita da Lua pela primeira vez em mais de meio século retornaram à Terra nesta sexta-feira (10/04). A missão de dez dias orbitou o satélite natural – sem pousar – e se tornou a primeira viagem tripulada a atingir a órbita lunar desde 1972.
A cápsula Orion pousou no Pacífico às 21h07 (horário de Brasília), na costa de San Diego, cidade do estado da Califórnia, nos Estados Unidos.
A aterrissagem contou com enormes paraquedas, antes que a Marinha dos EUA buscasse a tripulação e os levasse de volta à terra firme. O navio de resgate USS John P. Murtha aguardava a sua chegada, assim como um esquadrão de aviões militares e helicópteros.
Segundo a Nasa, a agência espacial americana, a tripulação percorreu um total de 694.481 milhas, o equivalente a 117.659 quilômetros. A aproximação à Lua levou os astronautas mais longe do que qualquer ser humano jamais havia chegado, superando o recorde de distância anterior estabelecido pela Apollo 13 em 1970.
“Os Estados Unidos voltaram a enviar astronautas à Lua e a trazê-los de volta em segurança”, afirmou Jared Isaacman, administrador da Nasa, sobre a missão.
Fãs se reuniram para assistir ao pouso da Artemis 2 no Museu de Ar e Espaço de San Diego, na Califórnia© Grace Hie Yoon/Anadolu/picture alliance
Por sua vez, o presidente Donald Trump parabenizou a tripulação, que deverá visitar em breve a Casa Branca. Ele antecipou que o seu governo continuará impulsionando a exploração espacial. “Faremos de novo e, depois, próximo passo, Marte”, disse o republicano.
Mais de 30 vezes a velocidade do som
O pouso exigiu uma manobra tão crítica quanto o lançamento. A previsão era de uma queda a velocidade 45 vezes maior do que a de um avião, com temperaturas a quase metade das da superfície do Sol.
Astronautas Victor Glover e Christina Koch foram a primeira pessoa negra e a primeira mulher a visitarem a Lua© Bill Ingalls/NASA/Anadolu/picture alliance
A bordo da cápsula Orion, Reid Wiseman, Christina Koch, Victor Glover e Jeremy Hansen não apenas sentiram o peso deles multiplicado por quatro durante a queda, mas também enfrentaram temperaturas extremas de de cerca de 2.700 °C, depositando sua segurança no escudo térmico da nave, outro dos testes decisivos da missão Artemis 2.
“Pilotar uma bola de fogo pela atmosfera é algo extremamente profundo”, disse Glover em vídeo antes da operação de reentrada. No momento em que atingissem a atmosfera, eles viajariam a 32 vezes a velocidade do som, um feito inédito desde as missões Apollo da Nasa às Luas nas décadas de 1960 e 1970.
A cápsula Onion é totalmente autônoma, não exigindo controle manual dos astronautas, exceto em caso de emergência.
Manobra de “alto risco”
O engenheiro espanhol Carlos García-Galán, responsável pelo programa Moon Base da Nasa, explicou que o lançamento e a decolagem são as manobras de maior risco.
Ele destacou que o retorno permite atingir a velocidade necessária para testar o escudo térmico que protege os astronautas das “temperaturas extremamente altas geradas pelo atrito com a atmosfera ao entrar na Terra”.
“Só podemos alcançar esta velocidade se formos em direção à Lua”, acrescentou ele à agência EFE.
Durante um voo de teste, ocorreram problemas com o escudo térmico. Em consequência, a Nasa optou por uma rota diferente para a reentrada na atmosfera.
O administrador da Nasa, Jared Isaacman, chegou a afirmar que não ficaria tranquilo até que os quatro tripulantes retornem para suas famílias.
“Vou ser honesto e dizer que, na verdade, venho pensando na reentrada desde 3 de abril de 2023, quando nos designaram essa missão”, disse à imprensa Rick Henfling, diretor de Voo para o Retorno da Artemis.
Astronautas usaram óculos especiais para observar o eclipse solar© NASA/Planet Pix/ZUMA/picture alliance
Recorde de distância da Terra
Depois de decolar da Flórida em 1º de abril, os astronautas acumularam uma conquista após a outra ao conduzirem com destreza o tão esperado retorno lunar da Nasa, o primeiro grande passo para o estabelecimento de uma base lunar sustentável.
Na cena mais comovente da missão, os astronautas, com lágrimas nos olhos, pediram permissão para batizar duas crateras com os nomes da nave lunar e da falecida esposa de Wiseman, Carroll.
Durante a aproximação recorde, eles documentaram cenas do lado oculto da Lua e apreciaram um eclipse solar total, uma cortesia do cosmos graças à data de lançamento. O eclipse, em particular, “simplesmente nos deixou boquiabertos”, disse Glover.
Problemas a bordo
No entanto, a viagem não ocorreu sem problemas técnicos. Tanto o sistema de água potável quanto o de propulsão da cápsula enfrentaram percalços com as válvulas. O contratempo mais notável foi no banheiro, o que impediu a tripulação de usá-lo durante a maior parte da viagem, forçando os astronautas a recorrer a sacolas plásticas e funis.
Missão Artemis 2 testou a Cápsula Onion da Nasa© NASA/Handout/AFP
Mas isso não preocupou os astronautas. “Não podemos explorar mais a fundo a menos que façamos algumas coisas que sejam inconvenientes”, disse Koch, “a menos que façamos alguns sacrifícios, a menos que assumamos alguns riscos, e tudo isso vale a pena.”
Em 2027, a missão Artemis 3 prevê a acoplagem da cápsula a um ou dois módulos de pouso lunar em órbita ao redor da Terra. Já a Artemis 4 tentará pousar uma tripulação de dois astronautas perto do polo sul da Lua em 2028.
fcl/ht (AP, EFE, AFP, Lusa)
