A possível formação de um forte El Niño nos próximos meses está chamando a atenção de cientistas e serviços meteorológicos globalmente. A preocupação aumentou após a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) indicar uma alta probabilidade de o fenômeno se desenvolver ainda em 2026, com potencial para atingir uma intensidade muito forte entre o final deste ano e o início de 2027.
Embora “super El Niño” não seja uma classificação oficial, o termo é frequentemente usado para descrever episódios mais intensos do fenômeno climático, que estão associados a alterações significativas nos padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal por um período prolongado. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica e afeta o clima em diversas regiões do mundo, incluindo o Brasil.
O meteorologista Micael Cecchini, professor da Universidade de São Paulo (USP) e apoiado pelo Instituto Serrapilheira, explica que os cientistas monitoram constantemente a temperatura do oceano para detectar a formação do fenômeno. “Para definir um El Niño, é necessário que a temperatura do Pacífico Equatorial esteja pelo menos 0,5 grau acima da média histórica por certo período. A diferença entre um episódio fraco e um forte é justamente a magnitude dessa anomalia”, afirma. Ele acrescenta que quando essa diferença ultrapassa 2 graus celsius, o evento é considerado muito forte.
COMO OS CIENTISTAS CONSEGUEM PREVER O EL NIÑO?
A previsão do El Niño com meses de antecedência é possível graças a um monitoramento contínuo das condições oceânicas e atmosféricas realizado por centros meteorológicos de diversos países.
O climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explica que os pesquisadores observam diariamente as mudanças na temperatura do Pacífico. “Os centros meteorológicos monitoram constantemente as anomalias de temperatura do oceano usando mapas, índices e modelos climáticos”, diz o pesquisador, membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Ele ressalta que os modelos conseguem indicar tendências para os próximos meses, mas a incerteza aumenta conforme a previsão se estende no tempo.
O QUE PODE ACONTECER NO BRASIL
Os efeitos do El Niño variam de região para região. No Brasil, é comum haver aumento das chuvas no Sul e redução delas em partes da Amazônia e do Norte do país. De acordo com Cecchini, o Sudeste também tende a registrar temperaturas acima da média durante esses episódios.
“No Sul do Brasil, geralmente chove mais durante o El Niño, o que já esteve associado a enchentes significativas no passado. Na Amazônia, há uma redução mais generalizada das chuvas. No Sudeste, o efeito mais evidente costuma ser o aumento das temperaturas”, explica. O receio de um episódio muito forte se deve ao fato de que o El Niño pode atuar em um planeta já aquecido pelas mudanças climáticas.
Marengo destaca que ainda não há consenso científico sobre como o aquecimento global pode alterar a frequência ou a intensidade do El Niño. No entanto, ele alerta que os impactos sobre a população tendem a ser maiores hoje do que no passado. “As cidades cresceram, muitas áreas de risco foram ocupadas e os eventos extremos estão aumentando. Mesmo um El Niño que não seja extremamente forte pode causar problemas maiores do que no passado”, diz.
Fonte: BossaNewsBrasil
