quinta-feira, 28 maio 2026
Início Esportes Maldição do ouro volta a rondar a Coreia do Sul

Maldição do ouro volta a rondar a Coreia do Sul

0
37
A despedida de Son. Foto FIFA

A maldição do ouro! Os sul coreanos, muito supersticiosos, passaram décadas acreditando nela. Era uma forma de justificar os resultados ruins do futebol local.

A Copa da Ásia é a competição mais importante para as seleções da região. A Coreia do Sul ganhou as duas primeiras, em 1956 e 1960. Orgulho nacional, uma vez que o país vinha de uma destruidora guerra contra a Coreia do Norte, que foi encerrada com um armistício em 1953.

A maldição do ouro dura quase 60 anos! Nunca mais a Coreia do Sul ganhou o campeonato, que passou a ser dominado por ser arqui-rival, o Japão (quatro títulos).

Ela começou quando autoridades esportivas locais deram medalhas de ouro fake para os ganhadores de 1960. Com o tempo, a pintura começou a se desfazer. Os torcedores logo falaram em maldição. Não eram medalhas de ouro, mas de um metal barato.

Em 2014, pressionada, a Federação Coreana começou a procurar os jogadores sobreviventes ou familiares para entregar a eles medalhas de ouro verdadeiras. Fez isso várias vezes, curiosamente quase sempre na véspera de torneios importantes.

Em 2022, a Coreia do Sul brilhou na Copa que hospedou junto com o Japão. Terminou em quarto lugar, depois de uma derrota apertada para a Turquia por 3 a 2. O Brasil foi campeão batendo a Alemanha.

Foi o melhor resultado da História para uma seleção da Ásia. No caso da Coreia do Sul, melhor ainda numa copa dividida com o Japão. Os países tem disputas históricas. Os japoneses não só ocuparam a Coreia, como levaram de volta para casa milhares de mulheres coreanas para servir como prostitutas. O ressentimento é profundo, embora pouco expresso.

Este grande triunfo planetário não serviu, no entanto, para restaurar plenamente a confiança regional. A Coreia do Sul vem perdendo domínio para Japão, Austrália, Catar, Irã, Arábia Saudita e outros protagonistas.

Guerreiros de verdade

Conhecidos como Guerreiros do Taegeuk, o símbolo nacional Yin-Yiang em azul e vermelho, os jogadores da seleção coreana estão sujeitos ao serviço militar obrigatório como qualquer outro cidadão.

É que o país, na prática, ainda está em estado de guerra com o vizinho do norte.

Medalhistas em Jogos Olímpicos ou ganhadores do ouro nos Jogos Asiáticos recebem dispensa imediata.

Diferentemente de outros países, um clube de futebol que disputa o campeonato nacional, o Gimcheon Sangmu FC, serve exclusivamente àqueles que são convocados para o serviço militar.

Exportador de talentos

A Copa de 2026 marca a despedida de um dos maiores talentos da História da Coreia, Son Heung-min, de 34 anos de idade. No ano passado, ele se transferiu do Tottenham para o Los Angeles FC.

Outro veterano, Hwang In-beom, do Feyenoord, de 29 anos, é tido como o motor do meio-campo.

Kim Min-jae (Bayern) e Lee Kang (PSG) dão à torcida a esperança de rever a seleção entre as melhores do mundo.

Mas, os resultados recentes tem sido péssimos: a Coreia tomou uma goleada de 4 a 0 da Costa do Marfim e perdeu da Áustria por 1 a 0.

Assim como acontece no Brasil, o fato de a maioria dos jogadores atuarem fora da Coreia tornou-os astros ‘distantes’ da torcida — alguns, inclusive, pouco conhecidos.

A seleção escolheu um lugar relativamente remoto para o treinamento final nos EUA: região de Salt Lake City, em Utah.

Hwang, o motorzinho sul-coreano, que está se recuperando de mais uma contusão, foi o porta-voz do time na mais recente entrevista. Ela falou em ‘sacrifício’, algo que costuma motivar os sul coreanos:

Em jogos eliminatórios, tudo pode acontecer, porque é apenas uma partida. Na última Copa do Mundo, depois de três jogos na fase de grupos, alguns jogadores — eu inclusive — estávamos quase completamente exaustos após a partida contra a seleção brasileira nas oitavas de final (4 a 1 Brasil). Desta vez, os intervalos mais longos devem nos dar uma vantagem física caso cheguemos à fase eliminatória. Temos muitos jogadores com habilidades individuais excepcionais e mais jogadores atuando na Europa. Mas para maximizar esses pontos fortes, todos precisam pensar primeiro na equipe — não em si mesmos. Sacrifício gera sinergia.

Captura de Tela 2026 05 26 as 19.44.57

Festa em Seoul na Copa de 2002. FIFA

Fonte: Revista Fórum