Durante décadas, investidores brasileiros aprenderam uma regra aparentemente incontestável: quanto maior o retorno acima do CDI, melhor o investimento.
A lógica parecia fazer sentido. O CDI acompanha de perto a taxa básica de juros e, por consequência, tornou-se a principal referência de rentabilidade da indústria financeira nacional. Fundos, títulos privados, carteiras recomendadas e até planos de previdência passaram a ser avaliados pela capacidade de superar esse indicador.
Mas e se a referência estiver errada?
Essa é a provocação feita pela XP em um estudo elaborado em parceria com pesquisadores do Insper e da Atlantiqis Consulting. O trabalho sustenta que o CDI não deveria ser tratado como o ativo livre de risco para a maioria dos investidores e que sua predominância como principal benchmark da indústria pode estar levando milhões de brasileiros a avaliar seus investimentos a partir da métrica equivocada.
A tese desafia uma das crenças mais arraigadas do mercado financeiro brasileiro. Mais do que discutir a rentabilidade de um produto específico, ela questiona a própria definição de risco.
O risco não é perder dinheiro. É perder poder de compra.
A teoria financeira tradicional costuma associar risco à volatilidade dos preços. Quanto maior a oscilação de um ativo, maior seria seu risco. O estudo argumenta que essa definição faz pouco sentido para a maioria das famílias.
Uma pessoa que está poupando para custear a faculdade dos filhos daqui a quinze anos ou financiar a própria aposentadoria daqui a três décadas não tem como principal preocupação a oscilação do patrimônio no próximo trimestre. Seu verdadeiro risco é outro: descobrir, no futuro, que o patrimônio acumulado não é suficiente para pagar suas despesas. Essa distinção parece sutil, mas muda completamente a forma de enxergar os investimentos. “O ativo livre de risco é função dos objetivos do investidor”, afirma Artur Wichmann, CIO da XP. Em outras palavras, não existe um ativo universalmente seguro. Existe apenas um ativo mais adequado para cada obrigação futura.
A tese da XP não se apoia apenas em argumentos teóricos. Ao analisar dados entre 2010 e 2026, os pesquisadores constataram que os títulos públicos indexados à inflação superaram o CDI em diversos períodos, inclusive quando os retornos são ajustados pela inflação. Entre janeiro de 2019 e janeiro de 2023, por exemplo, o CDI entregou retorno real próximo de zero, enquanto índices compostos por NTN-Bs acumularam ganhos reais significativamente superiores.
O problema do CDI é justamente o futuro
A crítica ao CDI não está relacionada ao atual nível de juros. Com a Selic próxima de 14,5%, aplicações pós-fixadas continuam extremamente atrativas. O problema é estrutural.
Ao investir em um produto atrelado ao CDI, o investidor conhece apenas a remuneração de hoje. Não sabe qual será a taxa disponível daqui a cinco ou dez anos, quando precisar reinvestir seus recursos.
Esse é o chamado risco de reinvestimento. Um investidor que compra hoje um Tesouro IPCA+ com vencimento em 2040, por outro lado, trava imediatamente uma taxa real de retorno acima da inflação para todo o período. Seu retorno nominal continuará incerto – afinal, ninguém sabe qual será a inflação futura -, mas seu ganho real já está contratado.
Enquanto o investidor do CDI aposta que os juros permanecerão suficientemente elevados ao longo do tempo, o investidor do IPCA+ garante antecipadamente sua remuneração real.
É justamente por isso que o estudo conclui que, para horizontes longos, títulos indexados à inflação podem ser menos arriscados do que aplicações pós-fixadas.
Uma ideia antiga que o Brasil ignorou
Embora pareça disruptiva, a tese não é nova. Ela remonta aos trabalhos de Robert Merton, vencedor do Nobel de Economia em 1997 e um dos pais das finanças modernas.
Desde os anos 1970, Merton argumenta que investidores de longo prazo deveriam organizar suas carteiras em torno de seus passivos futuros – conceito conhecido como Liability Driven Investing (LDI). O objetivo não é maximizar retornos de curto prazo, mas aumentar a probabilidade de cumprir obrigações futuras.
Sob essa ótica, o ativo livre de risco para uma família não seria o equivalente financeiro de um depósito bancário, mas sim um ativo capaz de acompanhar a evolução dos custos que essa família enfrentará no futuro. Como saúde, educação e aposentadoria tendem a ser influenciadas pela inflação, títulos indexados ao IPCA tornam-se candidatos naturais para cumprir esse papel.
O paradoxo brasileiro
O aspecto mais curioso da discussão é que o Brasil possui justamente um dos mercados mais sofisticados do mundo para implementar essa estratégia. Poucos países contam com um estoque tão amplo e líquido de títulos públicos indexados à inflação quanto o Brasil. Produtos como Tesouro IPCA+, Tesouro RendA+ e Tesouro Educa+ têm despertado interesse de especialistas internacionais em previdência e planejamento financeiro, sendo apontados em estudos recentes como exemplos de inovação em títulos públicos indexados à inflação.
O RendA+ foi inspirado em estudos dos professores Robert Merton e Arun Muralidhar que introduziu o conceito de SeLFIES, (Standard-of-Living, Forward-starting, Income-only Securities) que são produtos financeiros que facilitam o processo de poupar para uma previdência complementar. Conforme o conceito, ele é acessível a qualquer pessoa, que pode determinar a quantidade de ativos que deseja adquirir, com taxas de retorno competitivas, de baixo custo e baixo risco.
A ironia, segundo a XP, é que o país construiu os instrumentos sem alterar a mentalidade dos investidores. “O Brasil talvez seja o único lugar onde existe uma infraestrutura tão desenvolvida de proteção contra a inflação e, ao mesmo tempo, uma obsessão tão grande por medir tudo em CDI”, resumiu Wichmann.
Mudança de paradigma
Os autores deixam claro que não defendem o abandono do CDI. Aplicações pós-fixadas continuam desempenhando papel central na reserva de emergência, na gestão de caixa e em objetivos de curto prazo. O que o estudo questiona é sua posição como referência universal de sucesso financeiro.
A conclusão é menos sobre investimentos e mais sobre comportamento.
Por décadas, o investidor brasileiro foi treinado para perguntar se sua carteira bateu o CDI. A pergunta que a XP propõe é outra: o patrimônio acumulado será suficiente para financiar a vida que ele pretende ter no futuro? A diferença entre as duas perguntas parece pequena, mas o estudo sugere que ela pode mudar completamente a forma como o país investe.
Fonte: Forbes Brasil
