Nos últimos meses, o México voltou ao centro do noticiário internacional em meio a uma combinação explosiva de fatores: o endurecimento da política dos Estados Unidos, a eleição da nova presidente Claudia Sheinbaum, e a escalada da violência ligada aos cartéis de drogas. A morte recente de um dos principais líderes do narcotráfico aprofundou a crise de segurança e reacendeu ameaças de sanções econômicas e tarifas por parte de Washington, sob a liderança de Donald Trump.
Embora o momento atual seja particularmente tenso, a relação entre México e Estados Unidos — especialmente em torno da fronteira, do tráfico de drogas e da dependência econômica — é marcada por conflitos históricos, assimetrias de poder e ciclos recorrentes de cooperação e confronto.
Relação histórica entre EUA e México
A relação bilateral sempre foi moldada por disputas territoriais, interesses econômicos e segurança regional. Desde o século XIX, quando o México perdeu grande parte de seu território para os EUA, o vínculo entre os dois países passou a ser caracterizado por dependência econômica mexicana e influência política norte-americana.
No século XX, essa relação se aprofundou com acordos comerciais e cooperação em segurança, mas também com tensões ligadas à imigração, ao tráfico de drogas e à soberania nacional. A criação do NAFTA, nos anos 1990, consolidou o México como parte fundamental da cadeia produtiva norte-americana, ao mesmo tempo em que ampliou sua vulnerabilidade às decisões de Washington.
O Estado mexicano em transformação política
O México entra em 2026 sob uma profunda reconfiguração institucional. A gestão de Claudia Sheinbaum, primeira mulher a presidir o país, marca a consolidação da chamada “Quarta Transformação” (4T), projeto político iniciado por seu antecessor e conduzido pelo partido Morena.
Com uma supermaioria no Congresso, o governo aprovou mais de 20 reformas constitucionais que alteram o Judiciário, o sistema eleitoral e a segurança pública. A mais controversa é a reforma eleitoral que elimina a representação proporcional, reduz o número de parlamentares e centraliza o controle das eleições no Instituto Nacional Eleitoral, cujos dirigentes passariam a ser eleitos por voto popular.
Como está a economia do México hoje
A economia mexicana vive uma contradição em 2026. O crescimento é modesto — cerca de 1,5% —, pressionado por juros altos, consolidação fiscal e instabilidade externa. Ao mesmo tempo, o país registra níveis recordes de investimento estrangeiro direto, impulsionado pelo processo de nearshoring, que aproxima fábricas do mercado norte-americano.
O governo lançou o ambicioso Plan México, estratégia industrial que busca transformar o país em polo de tecnologia, energia renovável, semicondutores e eletromobilidade. Incentivos fiscais agressivos pretendem atrair até US$ 100 bilhões anuais em investimentos até 2030.
Apesar disso, o maior desafio fiscal continua sendo a estatal Petróleos Mexicanos (Pemex), altamente endividada e dependente de aportes do Tesouro, o que limita a margem de manobra do governo e pressiona a credibilidade financeira do país.
A relação atual entre México e EUA
O relacionamento bilateral atravessa um dos momentos mais voláteis desde a assinatura do acordo comercial norte-americano. A segunda gestão Trump adotou uma política de “pressão máxima”, usando tarifas como instrumento para forçar o México a endurecer o combate ao tráfico de drogas e à imigração irregular.
Embora a Suprema Corte dos EUA tenha barrado parte das tarifas impostas unilateralmente, Washington adotou novas bases legais para sobretaxar importações. Produtos que cumprem integralmente as regras do USMCA seguem isentos, mas o clima de incerteza afeta cadeias produtivas estratégicas.
Ao mesmo tempo, o México intensificou o controle migratório, reduzindo drasticamente os fluxos na fronteira norte — uma concessão vista como moeda de troca para evitar sanções mais severas.
Os cartéis e a crise de segurança
A questão dos cartéis segue como o eixo mais sensível da relação bilateral. Em fevereiro de 2026, a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, líder do Cartel de Jalisco Nueva Generación, em operação com apoio de inteligência dos EUA, marcou um ponto de inflexão.
A ação foi interpretada como um gesto político do governo mexicano para conter ameaças de intervenção militar norte-americana. No entanto, a resposta dos cartéis foi imediata: ataques coordenados em diversos estados, dezenas de mortos e paralisação de serviços públicos.
Muitos dos armamentos utilizados pelos cartéis e apreendidos pelas autoridades mexicanas têm origem norte-americana. As tensões entre os dois países crescem diante das investidas imperialistas dos Estados Unidos, enquanto o México tenta estruturar e organizar o país. Ao mesmo tempo, os EUA inundam o território mexicano com armas e instabilidade.
O México de 2026 vive uma encruzilhada histórica. Internamente, avança em uma centralização política sem precedentes recentes.
A revisão do USMCA, prevista para o segundo semestre de 2026, será decisiva. O desfecho das negociações indicará se o México conseguirá equilibrar soberania, estabilidade econômica e integração regional — ou se seguirá refém das tensões políticas e comerciais com seu vizinho do norte.
Fonte: Revista Fórum







